Trilhas do Aborto Legal: pesquisadora argentina destaca benefícios da AMIU na atenção primária
- Forum Aborto Legal RS

- há 1 dia
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Em continuidade à série de entrevistas do projeto Trilhas do Aborto Legal, o Fórum Aborto Legal RS conversou com a pesquisadora e psicóloga Cecília Carrizo Villalobos, profissional da Atenção Primária à Saúde em Córdoba, na Argentina. Na entrevista, disponível nas redes sociais do Fórum, Cecília compartilha a experiência de implementação da Aspiração Manual Intrauterina (AMIU) na rede pública de saúde, aborda os desafios enfrentados pelas equipes e destaca os benefícios do método para pacientes e serviços de saúde.
O projeto Trilhas do Aborto Legal busca dialogar com profissionais que atuam em diferentes pontos da rede de atenção, contribuindo para a reflexão sobre práticas, desafios e estratégias para garantir o acesso ao aborto legal de forma segura, humanizada e baseada em evidências.
AMIU ainda enfrenta barreiras para chegar à atenção primária
Segundo Cecília, um dos principais obstáculos para a ampliação da AMIU é a percepção equivocada de que se trata de um procedimento cirúrgico complexo, que exigiria estrutura hospitalar, centro cirúrgico e anestesia geral.
“Existem barreiras simbólicas e conceituais que fazem com que a prática continue sendo centralizada nos hospitais, mesmo podendo ser realizada de forma segura na atenção primária”, explica.
Ela destaca também desafios estruturais, como a falta de capacitação das equipes, a sobrecarga de trabalho dos profissionais e a limitação da carga horária dos serviços, fatores que dificultam a incorporação do procedimento na rotina das unidades de saúde.
Implementação exigiu articulação institucional
A experiência de Córdoba demonstra que a implementação da AMIU depende não apenas da formação técnica das equipes, mas também de articulação política e institucional.
De acordo com Cecília, foi fundamental construir uma parceria com o Ministério da Saúde da província para dar respaldo ao projeto e garantir segurança aos gestores municipais. O reconhecimento institucional possibilitou a realização das capacitações e a consolidação do serviço.
No nível estrutural, um dos desafios foi a dificuldade de organizar as equipes, diante das condições de trabalho, tendo em vista que muitos profissionais acumulam empregos em diferentes serviços, dispondo de baixa carga horária.
Cecília destaca ainda, que a aprovação da Lei 27.610, que regulamentou o acesso à interrupção voluntária da gravidez na Argentina, também foi apontada como um marco importante para superar os desafios e fortalecer a implementação das práticas.
Informação amplia autonomia na escolha do método
Na avaliação da psicóloga argentina, a falta de informação ainda e desconhecimento dos métodos disponíveis para interrupção da gestação apresenta-se como uma barreira, já que o procedimento é frequentemente associado apenas ao uso de medicamentos ou à curetagem.
Neste sentido, durante a entrevista ela destaca que, quando as mulheres e pessoas que gestam recebem informações adequadas, podem escolher entre os métodos recomendados e assim optar pelo que melhor se adequa ao contexto, seja ele social, econômico ou psicológico, minimizando então preocupações relacionadas ao manejo da dor e do sangramento.
Na experiência do serviço em Córdoba, a AMIU é frequentemente escolhida por ser um procedimento rápido, realizado com acompanhamento contínuo da equipe de saúde e com recuperação praticamente imediata.
“Como dado central da nossa pesquisa, identificamos que as pessoas que realizaram a aspiração em nosso centro de saúde relataram ter sentido menos dor do que imaginavam”, destaca.
Mais segurança e menos riscos
Ao falar sobre segurança, Cecília ressalta que a comparação mais adequada deve ser feita entre a AMIU e a curetagem uterina instrumental, procedimento historicamente utilizado para interrupção da gestação.
Segundo ela, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda a substituição da curetagem pela aspiração intrauterina, devido à maior segurança oferecida pelo método.
A utilização de cânulas plásticas flexíveis reduz significativamente os riscos de perfuração e lesões uterinas. Além disso, por ser realizada em ambiente ambulatorial e com anestesia local, a AMIU evita os riscos associados à anestesia geral e à internação hospitalar.
Em comparação com o tratamento medicamentoso, ambos os métodos são considerados seguros e recomendados. A escolha deve respeitar as preferências da pessoa atendida. No entanto, a profissional observa que a AMIU apresenta uma taxa de efetividade ligeiramente superior e proporciona maior previsibilidade em relação ao sangramento e à recuperação após o procedimento.
Ampliação do acesso fortalece direitos
Para Cecília Villalobos, ampliar a oferta da AMIU na atenção primária representa mais do que incorporar uma nova tecnologia em saúde. Trata-se de garantir que as pessoas tenham acesso a diferentes opções de cuidado, fortalecendo sua autonomia e o direito de decidir.
Além de contribuir para a humanização da assistência, a descentralização do procedimento reduz a sobrecarga dos serviços especializados e amplia a capacidade de resposta do sistema de saúde, aproximando o cuidado das necessidades das mulheres e pessoas que gestam.




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